Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Casa com vista para o infinito...

 

 

 

 

 

 

Acordo... Esfrego os olhos mal abro a janela e os raios de sol entram. No entanto hoje está muito mais frio. Visto um robe feito com retalhos de mantas velhas que descobri em casa e lavei para esse fim.

 

Já passaram cinco meses desde que cheguei.

 

A casa onde me instalei é humilde. Como gosto. Não tenho muito mas o que possuo chega-me perfeitamente. Uma tina grande em madeira onde me banho alegremente e enxaguo os meus longos cabelos. Uma cama confortável... Uma arca onde guardei os meus objectos importantes para um futuro que espero longinquo, porque não quero sair daqui tão depressa.

 

Tenho uma pequena lareira e uma panela onde faço sopa com os legumes que plantei no meu quintal, uma mesa com um banco onde me sento a coser a minha roupa à luz da vela quando a luz do sol de Inverno já não me chega.

 

Por fora caiei a casa de branco nos dias seguintes à minha chegada. Limpei e podei as sebes e a laranjeira, reparei o cercado em volta que separa a minha das outras casas e pintei-o de verde. Tenho um pequeno alpendre cuja madeira do chão teve de ser arrancada e posta de novo. Pedi ajuda ao vizinho ferreiro que mo fez em apenas duas manhãs. No meu alpendre coloquei dois vasos com flores e um banco enorme em madeira. Quando o Verão chegar, forrá-lo-ei com almofadas para me deitar nas tardes quentes a contemplar o mar.

 

Da minha casa vê-se o mar. E de noite, no silêncio, consigo ouvir as ondas a bater na areia e no rochedo de onde saltei há várias semanas. Adormeço com o som da força em dias de chuva e embalada pelo murmurio em dias calmos em que estrelas reluzem no céu.

 

Amanhã visitarei Jonas e Rosa, a sua esposa. Tenho-lhes feito visitas regulares. Foram os primeiros nesta terra a abrir-me as portas. Não tenho muito para lhes oferecer como agradecimento... Apenas laranjas e saudade de onde vim...

 

 

 

 

A minha alma sente-se: Enigma - Almost Full Moon
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Escrito por Capitã_de_vida às 23:40
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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

A Esperança...

 

 

- No outro dia vi a menina a atirar-se.

 

 

Viro-me. Um homem, dos seus setenta anos, observa-me.

 

 

- Estava longe. - diz-me. - Não pude alcançá-la. Fui para casa a pensar nisso. Mas com uma queda destas, nada havia a fazer. O que a levou a fazer aquilo? Como conseguiu?

 

- Não sei... - digo-lhe. - Não me recordo.

 

- Digo-lhe já. Teve muita sorte. A menina foi abençoada com esta dádiva. Sobreviver...

 

 

Ato a minha túnica a uma pequena mala que possuo e que me acompanha sempre. Permaneço em silêncio.

 

 

- O meu nome é Jonas. Moro por detrás daquele pequeno monte com a minha mulher. - aponta na direcção. - Temos uma casinha, horta e ovelhas.

 

Sorrio.

 

- Porque não vem um dia lá jantar? - pergunta-me. - É uma casa humilde mas comida não lhe faltará. E uma cama se precisar. A minha Rosa faz uns queijos das nossas ovelhas que digo-lhe, menina... Qual a sua graça?

 

- Esperança.

 

- Bom, menina Esperança como estava a dizer, os nossos queijos são divinais! Apareça! Contei à minha esposa que vi uma moça a atirar-se do rochedo. Olhe que a pobre ficou a noite toda a pensar nisso. Mal dormiu. Queria que ela visse que estava bem. Que estava viva! Seria uma alegria enorme!

 

Os olhos do homem, negros e grandes, humedecem. Noto-lhe uma tristeza enorme. Ele observa o mar...

 

- Sabe, nós perdemos um filho neste mar. - a voz treme-lhe. - Era pescador. Tal como eu fui. Nunca quis essa vida para ele, mas teimoso... Seguiu-me as pisadas. Gostava daquilo. Íamos os dois e mais sete na minha pequena embarcação. O "Glória". Bons tempos esses. Muito peixe...

 

Faz uma pausa enquanto retira um lenço do bolso das calças gastas. Limpa os olhos.

 

- Um dia combinou com dois amigos. Ele era experiente os outros não. Mas nem foi por isso. A tempestade. O barco virou... Menina, não sabe o desgosto. Os três morreram. A minha mulher e eu... Ai menina... Vendemos tudo o que nos recordasse da nossa vida no mar. Comprámos aquela pequena casa e... O nosso Tomás... O desgosto, menina, o desgosto...

 

E chora.

 

O corpo dele treme da angústia. Chora compulsivamente. Aproximo-me e pouso-lhe a mão no ombro.

 

- Terei todo o gosto em comer os vossos queijos... - digo por fim.

 

 

 

 

 

 

E ali, naquele rochedo, de onde me atirei para o vazio, tornei-me na Esperança...

 

 

 

 

 

 

 

A minha alma ouve: Roxette - Whish I Could Fly

Escrito por Capitã_de_vida às 20:26
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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Quando as vontades se atropelam dentro de nós!

 

Fecho os olhos...

 

O meu corpo embate na água e desce de uma forma vertiginosa. Sinto todos os músculos contraídos. As têmporas latejam. O impacto violento sacode-me as vertebras. Não sei a que profundidade estou. Nunca soube calcular isso. Sinto a pressão da água. O quanto nada sou na vastidão do Oceano. O borbulhar à minha volta. O som do Mundo que ecoa dentro do meu peito. Tudo se resume a isto. A um mergulho no vazio. A queda de um corpo. Se quisermos, a queda do perecer de nós enquanto seres vivos. Deixo-me ir... 

 

O coração bate descontroladamente. Venho a mim.

 

Abro os olhos num rasgo de tempo e viro-me. Tento não me descontrolar. Concentrar-me num só ponto. Impulsiono o meu corpo e nado até à luz. O vazio, o negro da profundidade ficam para trás. Para o fundo de outro mundo. Onde eu, como humana, apenas pertenço momentaneamente.

 

Consigo emergir e inspiro. Tusso. Expiro. Engasgo-me com a água salgada. Inspiro novamente com mais calma enquanto movo os membros para me manter à tona. Sinto-me tonta. Estou a tremer. O sol encandeia-me. Não sei quantos segundos passaram. Sinto-me a desfalecer mas busco forças supremas dentro de mim para me manter à superfície...

 

 

 

 

Tantas vezes repeti esse gesto. Nadar para respirar. Para depois mergulhar novamente em busca do que de mim consegui resgatar. Os meus bens mentais essenciais de sobrevivência. Para não ser levada para o profundo negro. O qual em nada se identifica comigo. Com a minha ânsia de viver. De ter forças necessárias para absorver o que me rodeia; aquilo que observo e creio, apenas para mim, que seja hediondo e vulgar.

 

 

Hoje será mais um desses dias. Nadarei até à praia. Por mais distante que esteja. Nadarei. Posso um dia não o conseguir. Mas hoje roubarei forças à minha essência para o fazer. E quando chegar à areia, a Terra firme, beijá-la-ei. Porque a conquistei mais uma vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Volto ao rochedo uns dias depois. A minha túnica estava lá. Fora levada pelo vento e ficara presa num arbusto espinhoso. Ainda cheirava a mim. Como tudo o que toco e todo o lugar que passo...

 

 

 

 

A minha alma sente-se: suprema
A minha alma ouve: Enigma - Hallelujah
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Escrito por Capitã_de_vida às 20:18
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Mergulho no abismo...

 

 

Sentada no alto do pequeno rochedo, vislumbro o elemento natural que me foi imputado nos ínicios de vida. As ondas batem na areia e o som desperta-me os sentidos. Melodias que só o mar consegue trazer. O som dos que nele pereceram e dos que nele nasceram. Os segredos que esconde. As gaivotas pairam no ar em busca de alimento e poderia ouvi-las a milhas. O cheiro da maresia enche-me os pulmões uma e outra vez. Abre-me os bronquios e atropela-me a mente que busca desenfreadamente dividir aquele cheiro tão único em vários elementos. Apesar do sol encoberto, um calor abafado faz-me suar e deixa o meu corpo pegajoso. Sinto-me, pela primeira vez, desconfortável. viro-me de costas para a aragem, de forma a absorver um pouco de brisa mas em vão. Mais uma onda bate na areia como que se a lambesse. Como se mar e terra se completassem ali mesmo. Na praia, cavalos selvagens galopam vindos dos pastos de outra zona da costa. Consigo ouvir-lhes o arfar. A respiração acelerada. Invejo-lhes a imponência e rapidez. A elegancia equídea que me mostram a cada troca de patas. O sacudir de crinas levadas pelo sopro do vento abafadamente doentio. A beleza num animal. A inteligência de pertencer a dois mundos, ao seu e ao do Homem. O erguer o corpo em sinal de desafio.

 

Ergo-me. Abro os braços... O vento pára naquele preciso instante. Sinto-me pequena perante tamanha imagem do abismo entre o cimo do rochedo e o mar. Tiro a túnica que me cobre o tronco e deixo parte do meu corpo nu. Uma faixa cobre-me os seios. Uso umas calças de linho confortáveis que não me prendem os movimentos. E estou descalça para me sentir ligada à Terra, para me fundir com ela... Solto o cabelo que me cai pelas costas. Sinto um arrepio. O vento volta a silvar ao meu redor. Ouço mais uma vez as gaivotas e o relinchar dos cavalos na areia. Sons que mais uma vez se fundem. Tomo balanço com uma certeza inesperada. Como se estivesse à espera daquele momento toda uma vida. Inspiro mais uma vez o cheiro do mar, absorvo toda a sua força, fecho os olhos e atiro-me do rochedo...

 

 

 

A minha alma ouve: Enya - Adiemus
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Escrito por Capitã_de_vida às 09:46
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Sexta-feira, 5 de Dezembro de 2008

Significados

 

 

convés
 

do Cast. combés ou Lat.  conversu


s. m.,
Náut.,
a parte da cobertura superior do navio compreendida entre o mastro do traquete e o grande, onde os passageiros conversam e passeiam.


navegante1
 

 

 

 

adjectivo uniforme

 

1. que navega

 

 

2. que percorre o mar

 

 

3. que se desloca sobre a água

 

 

 

 

 

 

nome 2 géneros

 

1. aquele que navega; navegador

 

 

2. pessoa que percorre longas distâncias pelo mar

 

 

(Do lat. navigante-, «id.», part. pres. de navigáre, «navegar»)

 

 

 

 

 

 

Informação gentilmente cedida por:

 

http://www.priberam.pt/dlpo/dlpo.aspx

http://www.portoeditora.pt/dol/

 

 

 

 

 

 

-------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

 

 

 

Do ponto de vista da Capitã_de_Vida

 

 

Convés - Espaço onde me absorvo nos pensamentos, recordações, sentimentos. Onde medito, visualizo e me confronto comigo mesma. Perímetro onde vagueio enquanto escarafuncho o passado e o presente, onde recorro ao instinto e ao faro para saber se é hora de voltar ao leme e avançar para o futuro... A nossa vida resume-se ao convés aquando uma interacção com outros navegantes, conversas, estudos, planos, convivência. Experimentamos vários sentimentos, saboreamos alegrias e tristezas, por vezes acompanhados, por vezes sós. De volta ao leme que guia a nossa vida, ficamos sós. Podemos seguir as indicações da bussola ou dos conselhos de alguém. Mas maior parte das decisões são tomadas através do instinto.

 

Navegante - Todo aquele que existe e pretendem sê-lo. Navegante de vida. Que toma o leme e parte em busca de aventuras ou simplesmente se deixa conduzir por outros. Existem os navegantes passivos e os activos. Todos têm um papel importante. Contudo há os solitários que por fado não conseguem abranger um leque, mesmo que reduzido, de tripulantes/navegadores/ajudantes para o seu barco de vida e fazem-no sozinhos. E os que se rodeiam de uma tripulação quente e afectuosa por vezes e traidora e golpeante por outras. Há que saber separar a realidade daquilo que se pensa que apenas é. Navegadores mais experientes sabem se a alma, que emana do seu companheiro, é de luz ou trevas. Mas são precisos milénios de meditação e milhões de milhas percorridas para se conseguir tal proeza. Saber ler a alma de outrém.


Escrito por Capitã_de_vida às 09:40
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Quinta-feira, 4 de Dezembro de 2008

Início

 

 

    Já há muito que as memórias me assolam a mente em dias que não preciso de as recordar. Com elas o abismo entre o sonho de ter e a obrigação de ser. Vindas do mar que atravessei, usando mecanismos de defesa, ideais, sentimentos e valores que outrora me injectaram na mente porque acharam ser os mais correctos. Muitos deles prevalecem ainda. Outros absorvi-os através de pequenos raios de luz, de um Sol que raramente aparecia, que me serviram de alimento para sobreviver nas travessias de tempestades de dor e embates nas ondas de incertezas. De noites que pareciam dias e dias que nunca pareceram noites porque sempre o foram.

 

    Atraquei num porto que me pareceu hospitaleiro. Estávamos em Setembro. Fim de tarde. Pela primeira vez, em meses, vi o Sol escondido por detrás de pequenas nuvens rosadas, e senti-me novamente em casa. Peguei na minha saca, com os meus pertences, atei os cabelos ressequidos do sal e desci a prancha, do meu barco de vida, que dava até ao cais....

 

   Este foi o início de uma longa caminhada que fiz de fora para dentro de mim. O vasculhar do meu âmago e o abrir das feridas com os dedos salgados. A cura. A descoberta do ser. A quebra dos vícios mentais. A estagnação da imaginação dos navegantes. Porque têm imensa imaginação. E são sonhadores. Sabem melodias do mar e com elas saqueiam o vento a seu favor. Puxam a âncora dos desejos mais intímos e sacodem-nos da capa para que terceiros não os vejam, porque estamos num período de gente curiosa e ágil de pensamento. E os navegantes são novidades para as gentes daquela terra onde atracam. Porque desencadeaim um fervilhar nos corpos, de quem os observa, puxado pela forma como se mostram. Porque as pessoas pensam no quanto são livres, porque não têm um porto seguro, pensam naquilo que os navegantes aprenderam, viram e sentiram nesses mares, pensam no nascer do dia, muitos dias, que terão presenciado e como amaram a lua que não os deixou cair na insanidade quando mais nada vêem se não a imensidão do que ainda falta atravessar...

 

 

   Segura de mim, sou... Navegante do que já naveguei e do que ainda falta navegar...

 

 

 

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Escrito por Capitã_de_vida às 14:43
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