Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009

A Esperança...

 

 

- No outro dia vi a menina a atirar-se.

 

 

Viro-me. Um homem, dos seus setenta anos, observa-me.

 

 

- Estava longe. - diz-me. - Não pude alcançá-la. Fui para casa a pensar nisso. Mas com uma queda destas, nada havia a fazer. O que a levou a fazer aquilo? Como conseguiu?

 

- Não sei... - digo-lhe. - Não me recordo.

 

- Digo-lhe já. Teve muita sorte. A menina foi abençoada com esta dádiva. Sobreviver...

 

 

Ato a minha túnica a uma pequena mala que possuo e que me acompanha sempre. Permaneço em silêncio.

 

 

- O meu nome é Jonas. Moro por detrás daquele pequeno monte com a minha mulher. - aponta na direcção. - Temos uma casinha, horta e ovelhas.

 

Sorrio.

 

- Porque não vem um dia lá jantar? - pergunta-me. - É uma casa humilde mas comida não lhe faltará. E uma cama se precisar. A minha Rosa faz uns queijos das nossas ovelhas que digo-lhe, menina... Qual a sua graça?

 

- Esperança.

 

- Bom, menina Esperança como estava a dizer, os nossos queijos são divinais! Apareça! Contei à minha esposa que vi uma moça a atirar-se do rochedo. Olhe que a pobre ficou a noite toda a pensar nisso. Mal dormiu. Queria que ela visse que estava bem. Que estava viva! Seria uma alegria enorme!

 

Os olhos do homem, negros e grandes, humedecem. Noto-lhe uma tristeza enorme. Ele observa o mar...

 

- Sabe, nós perdemos um filho neste mar. - a voz treme-lhe. - Era pescador. Tal como eu fui. Nunca quis essa vida para ele, mas teimoso... Seguiu-me as pisadas. Gostava daquilo. Íamos os dois e mais sete na minha pequena embarcação. O "Glória". Bons tempos esses. Muito peixe...

 

Faz uma pausa enquanto retira um lenço do bolso das calças gastas. Limpa os olhos.

 

- Um dia combinou com dois amigos. Ele era experiente os outros não. Mas nem foi por isso. A tempestade. O barco virou... Menina, não sabe o desgosto. Os três morreram. A minha mulher e eu... Ai menina... Vendemos tudo o que nos recordasse da nossa vida no mar. Comprámos aquela pequena casa e... O nosso Tomás... O desgosto, menina, o desgosto...

 

E chora.

 

O corpo dele treme da angústia. Chora compulsivamente. Aproximo-me e pouso-lhe a mão no ombro.

 

- Terei todo o gosto em comer os vossos queijos... - digo por fim.

 

 

 

 

 

 

E ali, naquele rochedo, de onde me atirei para o vazio, tornei-me na Esperança...

 

 

 

 

 

 

 

A minha alma ouve: Roxette - Whish I Could Fly

Escrito por Capitã_de_vida às 20:26
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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009

Quando as vontades se atropelam dentro de nós!

 

Fecho os olhos...

 

O meu corpo embate na água e desce de uma forma vertiginosa. Sinto todos os músculos contraídos. As têmporas latejam. O impacto violento sacode-me as vertebras. Não sei a que profundidade estou. Nunca soube calcular isso. Sinto a pressão da água. O quanto nada sou na vastidão do Oceano. O borbulhar à minha volta. O som do Mundo que ecoa dentro do meu peito. Tudo se resume a isto. A um mergulho no vazio. A queda de um corpo. Se quisermos, a queda do perecer de nós enquanto seres vivos. Deixo-me ir... 

 

O coração bate descontroladamente. Venho a mim.

 

Abro os olhos num rasgo de tempo e viro-me. Tento não me descontrolar. Concentrar-me num só ponto. Impulsiono o meu corpo e nado até à luz. O vazio, o negro da profundidade ficam para trás. Para o fundo de outro mundo. Onde eu, como humana, apenas pertenço momentaneamente.

 

Consigo emergir e inspiro. Tusso. Expiro. Engasgo-me com a água salgada. Inspiro novamente com mais calma enquanto movo os membros para me manter à tona. Sinto-me tonta. Estou a tremer. O sol encandeia-me. Não sei quantos segundos passaram. Sinto-me a desfalecer mas busco forças supremas dentro de mim para me manter à superfície...

 

 

 

 

Tantas vezes repeti esse gesto. Nadar para respirar. Para depois mergulhar novamente em busca do que de mim consegui resgatar. Os meus bens mentais essenciais de sobrevivência. Para não ser levada para o profundo negro. O qual em nada se identifica comigo. Com a minha ânsia de viver. De ter forças necessárias para absorver o que me rodeia; aquilo que observo e creio, apenas para mim, que seja hediondo e vulgar.

 

 

Hoje será mais um desses dias. Nadarei até à praia. Por mais distante que esteja. Nadarei. Posso um dia não o conseguir. Mas hoje roubarei forças à minha essência para o fazer. E quando chegar à areia, a Terra firme, beijá-la-ei. Porque a conquistei mais uma vez.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Volto ao rochedo uns dias depois. A minha túnica estava lá. Fora levada pelo vento e ficara presa num arbusto espinhoso. Ainda cheirava a mim. Como tudo o que toco e todo o lugar que passo...

 

 

 

 

A minha alma sente-se: suprema
A minha alma ouve: Enigma - Hallelujah
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Escrito por Capitã_de_vida às 20:18
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Segunda-feira, 19 de Janeiro de 2009

Mergulho no abismo...

 

 

Sentada no alto do pequeno rochedo, vislumbro o elemento natural que me foi imputado nos ínicios de vida. As ondas batem na areia e o som desperta-me os sentidos. Melodias que só o mar consegue trazer. O som dos que nele pereceram e dos que nele nasceram. Os segredos que esconde. As gaivotas pairam no ar em busca de alimento e poderia ouvi-las a milhas. O cheiro da maresia enche-me os pulmões uma e outra vez. Abre-me os bronquios e atropela-me a mente que busca desenfreadamente dividir aquele cheiro tão único em vários elementos. Apesar do sol encoberto, um calor abafado faz-me suar e deixa o meu corpo pegajoso. Sinto-me, pela primeira vez, desconfortável. viro-me de costas para a aragem, de forma a absorver um pouco de brisa mas em vão. Mais uma onda bate na areia como que se a lambesse. Como se mar e terra se completassem ali mesmo. Na praia, cavalos selvagens galopam vindos dos pastos de outra zona da costa. Consigo ouvir-lhes o arfar. A respiração acelerada. Invejo-lhes a imponência e rapidez. A elegancia equídea que me mostram a cada troca de patas. O sacudir de crinas levadas pelo sopro do vento abafadamente doentio. A beleza num animal. A inteligência de pertencer a dois mundos, ao seu e ao do Homem. O erguer o corpo em sinal de desafio.

 

Ergo-me. Abro os braços... O vento pára naquele preciso instante. Sinto-me pequena perante tamanha imagem do abismo entre o cimo do rochedo e o mar. Tiro a túnica que me cobre o tronco e deixo parte do meu corpo nu. Uma faixa cobre-me os seios. Uso umas calças de linho confortáveis que não me prendem os movimentos. E estou descalça para me sentir ligada à Terra, para me fundir com ela... Solto o cabelo que me cai pelas costas. Sinto um arrepio. O vento volta a silvar ao meu redor. Ouço mais uma vez as gaivotas e o relinchar dos cavalos na areia. Sons que mais uma vez se fundem. Tomo balanço com uma certeza inesperada. Como se estivesse à espera daquele momento toda uma vida. Inspiro mais uma vez o cheiro do mar, absorvo toda a sua força, fecho os olhos e atiro-me do rochedo...

 

 

 

A minha alma ouve: Enya - Adiemus
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Escrito por Capitã_de_vida às 09:46
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